Armário Minimalista

O minimalismo é um estilo de vida com cada vez mais adesão pelo mundo fora. Foca-se no conhecimento daquilo que é realmente necessário para cada um e propõe vários passos que podem ser dados no sentido de nos libertarmos do que é supérfluo.

Esta forma de pensar alinha-se inteiramente com a temática do consumo consciente de vestuário e, em especial, com o desafio que a Alinhavo lançou no mês de junho - conhecer o meu armário: saber o que tenho, o que uso e o que preciso.

Neste sentido, convidámos a Fátima Teixeira, criadora do projeto Master of Simplicity, para falar connosco sobre a forma como o minimalismo pode ser aplicado à gestão do nosso armário e à forma como consumimos e usamos roupa.

Que peças consideras que são essenciais ter no armário?

Essencialmente, peças práticas e que vão ao encontro das nossas necessidades do dia-a-dia. O primeiro passo é analisar que tipo de atividades temos e quanto tempo passamos nelas… Por exemplo, passamos muito tempo em casa? Temos muitos eventos formais? Fazemos exercício todos os dias? Este tipo de reflexão irá ditar o que é mais essencial no nosso armário. No meu caso, tenho várias roupas práticas para andar por casa e fazer pequenas saídas como comprar o pão, despejar o lixo ou levar a minha bebé a passear, uma vez que tomo conta dela a tempo inteiro e trabalho a partir de casa.

Numa abordagem mais técnica, com o minimalismo em mente, acho essencial ter peças atemporais e que se conjuguem facilmente. A versatilidade do que temos ajuda muito a criar mais conjuntos com menos quantidade de roupa, o que nos permite uma organização mais fácil do nosso guarda-roupa e menos tempo e energia gastos na hora de decidir o que vestir. Eu tenho uma calças de ganga que facilmente se conjugam com quase todas as camisas e camisolas, alternando facilmente o look entre completamente informal e mais elegante. Também é interessante estudar as cores que funcionam connosco. Não sou apologista de que um armário minimalista deve ser branco, preto e bege. Ele pode ser… Mas não é uma obrigatoriedade. Na minha opinião, devemos entender quais as cores que melhor combinam connosco e deste modo teremos sempre peças que adoramos. Confesso que prefiro peças lisas, quase sempre, apesar de ter duas camisas com padrões que simplesmente adoro e uso muito!

O que deves manter em mente quando vais às compras?

Mantenho em mente o que preciso comprar, pois geralmente só vou às compras quando é preciso algo! Gosto muito de quando o funcionário me orienta na loja para aquilo que procuro, mas não me deixo influenciar quando começa a dizer que tal peça é muito bonita, muito isto e aquilo. Sou muito firme na minha opinião. Sobretudo quando procuro algo para a minha bebé, pois nesta fase tudo é muito fofo e, por vezes, irresistível! Mas se não serve, está grande demais ou já tem o suficiente não compensa comprar pois vai dar chance para acumular e complicar na organização.

Porém, sugiro a todos que não comprem por impulso e que sempre se questionem se vale a pena, se gostam mesmo, se irão usar ou deixar num canto do armário, se estão comprando apenas porque está em promoção ou por ser barato. É importante comprar conscientemente e entender que se tornam responsáveis por tudo aquilo que adquirem. Sempre que possível, questionem também a credibilidade da loja e dos produtos, e procurem comércios locais. Hoje há cada vez mais lojas portuguesas com produtos ecológicos de grande qualidade e cujo acesso tornou-se fácil através da internet. Aliás, na Master of Simplicity Magazine temos partilhado diversos projetos relacionados.

Tudo isto soa bonito na teoria mas é mesmo necessário transpor para a prática… Para tal sugiro que no momento de ir às compras levem um papel com as perguntas que mencionei anteriormente, ou coloquem-nas na vossa lista no telemóvel.

Tens algumas dicas sobre como fazer limpeza do armário e selecção das peças, mantendo o essencial e selecionando o que não é preciso, de forma a evitar acumular peças?

Na minha opinião, existem duas fases pertinentes no destralhe do armário: a primeira é o grande destralhe, o primeiro passo, aquele em que paramos para refletir sobre o que temos, o que precisamos e o que usamos realmente. A segunda fase é a manutenção do armário, a qual pode levar a mais destralhes (pois cada fase da nossa vida pode requerer diferentes cuidados com o vestuário, seja devido a uma gravidez, a um novo emprego, mudança de país, etc; ou mesmo algo que usávamos muito deixamos de gostar assim tanto) ou simplesmente pode necessitar novos hábitos, de modo a evitar acumular peças e a saber comprar. Na primeira fase sugiro sempre começar por reflexão, como mencionei anteriormente: que tipo de atividades tenho? Que tipo de roupas preciso? Quais as minhas peças favoritas que uso mais? Após a reflexão (que podem fazer por escrito numa folha), passem à prática. O modo que tem funcionado melhor com as minhas clientes tem sido retirar literalmente tudo do guarda-roupa, limpar o armário e depois separar a roupa em diferentes montes:

  1. As roupas que adoramos e sempre usamos;

  2. Aquelas que adoramos mas não usamos;

  3. Aquelas que não adoramos e usamos;

  4. E aquelas que não adoramos e nunca usamos (porque estão pequenas, grandes, estragadas, rompidas, inutilizáveis, etc).

O primeiro monte podemos guardar direto no armário, pois são as que, sem dúvida alguma, devem ficar.

O segundo monte devemos analisar o porquê de não usar. Será que está grande? Pequeno? Utilizamos a expressão “porque um dia vou usar”? Ou “vou guardar para o caso de usar um dia”? Há dois caminhos possíveis aqui dependendo da situação. Por um lado, exemplificando, se quer emagrecer pode usar a peça para te motivar expondo-a onde a veja sempre. Por outro, há uma forte probabilidade da roupa ficar ali ocupando espaço durante anos sem nunca ser usada. A minha dica? Se não usa, retire do armário. Vai ganhar espaço, menos stress e mais organização. Mantenha apenas o que usa ou irá usar muito brevemente.

Quanto ao terceiro monte, o mais polémico e problemático, talvez, sugiro que busque aquela lista com a sua análise do que precisa e a use neste momento. Muitas vezes, devido à limitação financeira, por exemplo, não é possível ter as roupas que gostaríamos, porém precisamos de usar determinadas peças para ocasiões específicas, mesmo quando não são aquelas peças que amamos. Por isso, verifique o que precisa garantidamente. Não é nada cómodo retirar uma peça do armário só porque “não lhe traz alegria” e depois não ter o que usar num evento importante ou num momento de fazer ginástica. Seja realista. Ser minimalista não é passar necessidade mas sim ter o essencial. Também não tenha em demasia. Será que precisa mesmo de 5 calças de ganga? 20 pares de sapatos? Avalie o seu contexto e não compare números com outros… A sua realidade é sua. E em caso de dúvida, consulte um profissional, não só poupará tempo, receberá auxílio no momento de decisão, e facilitará todo o processo, sobretudo quando há roupas antigas com bastante valor sentimental. Este é um dos tipos de serviço pelo qual mais sou requisitada enquanto facilitadora no processo de destralhe , logo a seguir ao destralhe da casa.

O que fazer às peças que não são essenciais no armário?

Não as manter! Se não são essenciais simplesmente decida: dar, doar, vender ou reciclar. Considere dar para alguém que conhece, que precisa, que tem por exemplo um filho da mesma idade, etc.

Considere doar a uma instituição de caridade ou uma associação. Eu, por exemplo, doo a maior parte das roupas da minha filha a uma associação perto de minha casa que tem uma loja de caridade, na qual vendem todas as coisas (não só roupa) para arrecadar dinheiro para cuidar de cachorros. Há formas bem simples de ajudarmos, e esta é uma delas!

Considere vender, pode ser no OLX ou em grupos de Facebook, por exemplo. Mas neste caso verifique se consegue vender mesmo, senão pode correr o risco de ficar com o saco de roupa por mais uns meses lá em casa...

Considere reciclar, sobretudo se a peça de roupa está inutilizável, ou colocá-la nos contentores de reciclagem de roupa. Recentemente partilhamos na edição 9 Maio/Junho da Master of Simplicity Magazine sobre o projeto do Tapete Comunitário da Frameworq, no qual as pessoas levavam restos de tecidos e construíam um tapete todas juntas.

Este evento da Frameworq não foi em Portugal, certo? Como vês esta questão em outros países?

Verdade. Este evento decorreu no Canadá, em Vancouver, cidade onde vivi e simplesmente amei. É muito comum haver lá atividades dedicadas à reparação e reutilização da roupa e muitos destes eventos são gratuitos e integrados em feiras! Por exemplo, na edição 9 Maio/Junho da Master of Simplicity Magazine publicámos ainda “o grupo Vancouver Sustainable Fashion Designers (VSFD) conecta designers de moda que praticam a sustentabilidade e que buscam colaborar, compartilhar recursos, estimular a criatividade e se apoiar entre si. São realizadas reuniões regularmente”. Eu acho simplesmente maravilhoso haver este tipo de iniciativas, sobretudo por quem trabalha na área!

Uma vez que as crianças crescem rápido em pouco tempo, como é que podemos aplicar a ideologia do minimalismo quando escolhemos peças para os nossos filhos?

Adoro este tópico pois tenho uma bebé de dois anos que está muito alta e o número do seu sapato tem mudado a cada mês! Sugiro:

  • Ter a caixa/saco de doações no roupeiro dos filhos. Deste modo, assim que uma roupa já estiver pequena ou não servir, deve-se colocar logo nessa caixa. Com regularidade vai-se vendendo ou doando o que lá estiver dentro e, deste modo, mantém-se o armário sempre organizado, apenas com roupa que está sendo usada.

  • Ter à mão apenas a roupa que está sendo usada (se está muito pequena deve ir para a caixa de doações, se está grande deve ficar no saco do futuro)

  • Não ter mais do que um saco de roupa para o futuro. Neste caso eu recebo roupa dos meus familiares e sinceramente aceito. Mantenho no saco do futuro apenas o que vai servir num futuro próximo (se está muito grande dou ou doo) e não deixo acumular mais do que um saco de roupa. Considero que, como eles crescem rápido, estas roupas e sapatos vão ser usadas brevemente e, por isso, são importantes. Sempre que coloco umas calças na caixa de doações, vou no saco do futuro ver se tem algumas calças que lhe sirvam.

  • Na hora de comprar, só compro dentro destes parâmetros: ser para agora ou um futuro próximo. Se a peça é muito “fofinha” mas é 3 números acima, eu não compro, nem mesmo que a senhora me diga que é uma oportunidade única (elas sempre fazem o trabalho delas!). Considero que em vez de deixar a roupa parada, ela terá mais utilidade com outras crianças agora… E “se um dia” eu tiver mais filhos, tenho a certeza que não lhes faltará roupa!

Quais os projectos que sugeres para quem deseja ter um armário mais minimalista?

Existem vários que surgem como uma motivação para quem gosta de desafios! Os mais conhecidos são o projecto 333 (lê-se três, trinta e três) e o Armário Cápsula. Depois tem uns mais radicais como usar um vestido apenas durante um ano inteiro! Claro que, devemos adaptar o desafio à nossa realidade. Cada país é diferente, com condições diferentes. Quando morei no Canadá lavava e secava toda a roupa em uma manhã, mas quando morei no sul do Brasil a eletricidade era muito cara para usar máquina de secar e a humidade era tão intensa que no Inverno a roupa podia levar muitos dias a secar. Em relação aos dois projectos que mais sugiro:

O projecto 333 foi criado por Courtney Carver, autora do blog Be more with Less, e publicado pela primeira vez em 2010. Consiste em selecionar e utilizar 33 itens (ou menos) durante 3 meses, incluindo sapatos, acessórios e agasalhos, e excluindo itens que sempre se usam como a aliança, ou a roupa interior e a de ginástica.

O Armário Cápsula é um conceito cada vez mais conhecido, desenvolvido por Susie Faux na década de 70 e mencionado pela primeira vez em 80. Consiste numa pequena e intencional coleção de peças, geralmente não mais do que 37, que se adoram e se conjugam facilmente. Susie Faux defendia que devia conter items essenciais e atemporais, porém não existem regras rígidas em relação a este desafio.

Na edição número 4 Julho/Agosto 2017 da Master of Simplicity Magazine escrevi um artigo no qual sugiro como fazer um armário cápsula, bem como partilho sobre o aplicativo de telemóvel Cladwell, o qual auxilia bastante na utlização do armário cápsula.

Cladwell

Fátima Teixeira é autora do blog e da revista Master of Simplicity, que é lançada a cada dois meses em português e em inglês. Esta revista aborda tópicos como minimalismo, simplicidade e vida saudável, bem como sustentabilidade.